domingo, 6 de abril de 2008

Docinho Maravilha

Nus, os amantes se olharam assustados ao perceberem o barulho da chave girando na fechadura. Lídia, a amante, o abraçou e tentou acalmá-lo:

- Por que está tão nervoso? Vamos ficar livres dela de uma vez por todas.
- Acho que nunca ficaremos juntos, Lídia. – respondeu Rodolfo, preocupado.
- Por quê? Acha que ela lhe perdoará depois do flagrante?

Rodolfo colocou as duas mãos na cabeça e com enorme sentimento de culpa, confessou:

- Ela nunca me perdoará. Não vai dar tempo, porque eu nunca mais fiz o Docinho Maravilha pra ela... entendeu?

- O quê? – espantou-se Lídia - Rodolfo, está me dizendo que...?

Neste instante, a esposa transtornada entrou bruscamente no quarto, segurando com ambas as mãos uma arma apontada para Rodolfo.

- Eu sabia, Rodolfo! Você tem uma amante!

Muito decepcionada, ela disparou dois tiros certeiros nele, que abriu os braços e fechou os olhos, como se a sua morte fosse anunciada.

Lídia soltou um grito de horror e, chorando muito, implorou que não lhe matasse também. Ajoelhou-se diante da viúva e pediu perdão. A mulher a empurrou para o chão com um chute no rosto e fez questão de passar por cima dela com o salto agulha, enquanto caminhava lentamente em direção ao criado-mudo. Pegou a bolsa da amante e despejou os pertences sobre a cama, sem desviar a arma de sua direção. Comovida, livrou-se rapidamente da pistola ao encontrar o que tanto queria e precisava...

- Ah, Rodolfo... eu sabia... é o Docinho Maravilha... você era o único que sabia fazer esse doce fabuloso. - falou, saboreando lentamente a deliciosa iguaria.

Lídia pegou a arma e apontou em direção à assassina:

- Largue esse doce, agora! Ou senão eu atiro! – disse, sem muita certeza da sua coragem.
A esposa gargalhou, repousou a cabeça sobre o peito ensangüentado do marido e continuou saboreando o doce. Parecia não se importar com a ameaça da patética rival.

- Atire, sua louca. Quero morrer ao lado do homem que tanto amei, comendo o último Docinho Maravilha que ele produziu.

Após engolir o último pedaço do doce, a mulher sentiu a boca seca e o ar lhe faltando.

Vomitou e agonizou até a morte.

Lídia, perplexa e com pena da viúva, concluiu que Rodolfo só conseguia fazer o Docinho Maravilha para quem amava e que o doce era letal se engolido por outra mulher. Era esse o segredo do sabor especial.

As lágrimas escorriam pela sua face e tudo que ela mais desejava agora era ter seu Rodolfo de volta. Fora preciso uma tragédia como aquela para que ela descobrisse que Rodolfo a amava de verdade, pois ele não era bom com as palavras, mas era um gênio na culinária e expressava seus sentimentos através de sua arte.

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