domingo, 24 de fevereiro de 2008

Embarque Internacional

]Abrir portas[

-Sou o diabo, madame. Não acredita? um dois três e sua alma é minha. Você a perdeu junto com a fé. Diabo é coisa de Deus, madame. Não acredita? um dois três e você está abortando. AHAHAH! Joguem o feto aos leões.
Eu compro seus olhos apavorados. Quanto eles valem?
Quanto mal a madame já fez?
um dois três. Faça seu preço...

[Fechar portas].

O quarto de hospital era tranquilizante e ela estava só. "Perdi o vôo e todo o resto". Lembrou-se da gravidez, mas sentia-se oca. "De novo. Dessa vez eu queria". Levou as mãos aos olhos... doíam. "O Diabo é bonito de doer" - pensou.

Sentia-se fraca... Em breve a polícia iria entrar pela porta verde, a interrogaria e a levaria presa. Ela teria que explicar como aquela cocaína foi parar dentro de suas botas, seria obrigada a confessar todos os detalhes do tráfico, "blá blá blá... é a porra da delação premiada". Ela já sabia de tudo na teoria, mas na prática...

]Abrir portas[

... iria morrer antes que a polícia entrasse por aquela porta.

Nêga, Nêguinha meu amor

Imagem: Jana (kümka)
Teus dedos contém sedativos
que me transformam em rata de laboratório
eu vivo dentro de um aquário de vidro
forrado com os fios do teu cabelo:
-capinzinho negro chamuscado de tudo quanto é sol-
sou importante para ti
sou tão necessária quanto o lápis
de cor vermelha
que contorna teus lábios exibicionistas
meus olhos de camudonga tonta
(duas cabeças-de-alfinete)
são facilmente hipnotizados
pelo swing natural do balançar dos teus seios,
duas cantoras de rhythm'blues:
Big Maybelle e Billie Holiday

O palhaço Kunko e seu número clichê



Imagem: A menarca da contorcionista (ükma)

O circo Espetacular tem a honra de apresentar...Era chegada a hora de entrar no picadeiro.
kunko faceiro, pequenino, pouco mais que um menino, ele é o palhaço, que perdeu o cabaço no camarim de Jasmim, a equilibrista desequilibrada, casada com o mágico. Flagrante trágico! Prometeu vingança ao final do espetáculo, mas o peso da ameaça não lhe tirava a graça, não era obstáculo, cada riso da criança lhe enchia de esperança, cada aplauso de um adulto, mais energia para tudo. Viu na terceira fila, a seriedade de uma velhota se transformar em sorriso com sua melhor cambalhota.
Longe dali, chorava Jasmim. "Pobre menino, tão querido". Pediu ao marido que lhe desse a facada, pois ela era a culpada. O ilusionista iludido, e também comovido, sofrendo por amar e com dó do menino, perdoou a safada, enquanto do outro lado, ouvia as gargalhadas. Chegada a hora da morte, o palhacinho sem sorte, tirou o nariz de plástico, rezou um pai-nosso e uma ave-maria e encarou o mágico, que nada dizia. Estava acabado, foi perdoado, no dia seguinte, um novo espetáculo.
E assim aconteceu. O dia amanheceu e Carícia, a contorcionista, filha do ilusionista se declarou emocionada: "Estou apaixonada". Os dois pequeninos, meninos ainda enquanto se amavam não notaram que o pai, revoltado, mais uma vez para matar estava preparado: "primeiro pegaste a madrasta e agora enganaste a minha filha! Tua lábia, palhaço, é a maior armadilha""Seu mágico, o que pensas de mim não tem nexo! Com Jasmin, foi apenas sexo! não guarde rancor, com Carícia, é amor!" A jovenzinha deflorada implorou ao pai emocionado, que perdoasse mais uma vez o seu namorado.
E assim, este seria o fim, porém, Carícia e o pai ouviram Kunko dizer "ai" num abafado gemido, e em seguida tombar como um animal abatido. Jasmim havia atirado em quem havia lhe enganado. Não suportou ter sido trocada pela jovem enteada.
O circo Espetacular acabou. Perdoe a falta de rima, é que sinceramente, não há mais clima.

A índia Loura (Dulecê)

Imagem: Dulecê (ükma)
A heroína desta história chama-se Dulecê, uma índia sem tribo, muito loura, de peito zarolho com bicos iguais a pontas de flecha.
Nasceu sem cabaço porque o dito-cujo foi prometido ainda no útero por sua mãe aos espíritos da cachoeira em troca de chuva. Nunca fez falta, não.
"Lá vem Dulecê, a índia cabeça-de-palha!" - cantava a natureza.
E ela chacolhava os quadris no ritmo do seu nome.
Na madrugada verde-bandeira, a amazona nata cavalgava com seus mil pêlos d'ouro surribando na crina castanha do Andaluz bravio, acompanhada sem perceber por uma constelação de olhos entocaiados, que a desejavam mais do que coração ao sangue.
Era chegada a hora de ser mulher e Dulecê se foi sem despedida, sem nada.
Era agora uma índia rameira, sem eira-nem beira. Foi seduzida por olhos bêbados que a cobriram de vestidos de chita, sandálias rasteiras e bijoux. Do seu espírito selvagem, apenas conservou a boca sem cor, a cantiga faceira e o crédito na felicidade.
Os olhos de Dulecê quase não viram lágrimas enquanto estiveram vivos.
À luz do luar
uma cabeça-de-palha
sem pena,
rola no chão
Degolaram a índia loura e ainda
lamberam o facão
E assim termina a trajetória da índia muito loira. Espero que a amem tanto quanto o seu assassino a amou.

O Cortejo da Mania

Enfeitou com flores e fitas
o andor para em procissão solitária
levar a Loucura
ao altar, construído
no interior de um templo abstrato.

De seda, pendores,
insígnias divinas
cruzes e jóias
fitas mimosas
azuis, cor-de-rosa
ciranda de cores

um passarinho pousa na imagem
- mais um enfeite
enviado para fortalecer a crença
nos milagres da Demência

Sagrada Insanidade,
rogai por nós!

E segue solitário
de olhos fechados
em reza cantada...

o templo está aberto...
... a esperá-lo com festa.

Flá

Imagem: Flá (ükma) Sopa de estrela gelada
dentro do espelho d’água,
faz meu olho derreter,
deixa a pele arrepiada.

Queima a noite mal dormida,
alaga fauna e flora,
rouba a essência da vida.

Dentro da boca mofada,
doente, seca, inflamada,
recebo o sopro sagrado
da messalina dourada

- fumaça de encanto quebrado
exalando da língua encantada -

Redenção dos penitentes
nua, expõe sem pudores
seu monte em chamas
que anseia por dores

Vitrine viva bacante
casulo secreto
das paixões latentes
berço indiscreto dos amores
doentes

Seduzida, ataco a visão
com fúria
e faço de seu corpo
morada

Entro pela boca
e escorro pela garganta,

pisoteio seu ventre,
mordo seu coração.

A violento com sede:
em seu interior fecundo
planto minha semente

Ali ficarei enraizada
e receberei seus homens

Escravizarei a todos
para seu prazer

- um a um matarei de sede,
calor e desejo –

- Messalina,
assim serei amada
e te darei gozos de dor.

Em troca, te entrego minha alma
para que faças acordocom o Diabo

(Até esse coitado
em tuas mãosserá escravo).

Noite Passada a limpo

Imagem: marionete (ükma)
A noite passada acordou fantasiada de Suplício. Dona Noite, como ela gosta de ser chamada, sempre me encontra e me escolhe para ajudá-la em seus números de ilusionismo que se estendem até o amanhecer.

Passa o gato por cima da cama, o vento no ventilador, o barulho da chama da vela queimando no andor da procissão;

passa o perfume das flores, as vozes do além, o frio na janela, o cortejo das trevas cantando e rezando - amém.

Passa os três patetas na tela, a sede por cima da língua, o lençol sobre os pés

O pezinho que eu puxei
de criança atormentada
eu lambi e machuquei
quando dei uma dentada
tão branquinho e pequenino
parecia um bijouzinho

Dona Noite dá gargalhadas da minha superstição infantil e também arremeda meus gritos de dor sempre que o Pesadelo traz a família para fazer piquenique no meu estômago.

Ele também passa no sonho, mas é só pra me torturar, pois sei que Ele é a Noite fantasiada de suplício que me enconta e me escolhe para ajudá-la em seus números de ilusionismo que se estendem até o amanhecer.

Amor Inimigo

Eu te amei
Como Somoza amou Sandino
Como Garrastazu amou a subversão

Igual amor do semita pelo nazista
igual amor que o ateu confia ao Deus dos cristãos

Eu te amo
Com o mesmo amor que sente o mogno da Amazônia
ao morrer pelos dentes da serra elétrica

Como o viciado ama a abstinência forçada
Como uma mulher violentada ama o tarado que destruiu sua vida
e limitou seus desejos a uma simples noite sem pesadelos.

Lyrics: titãs
O inimigo sou eu
O inimigo é você

O amor é o pior inimigo, disfarçado de ódio.

Não aconteceu no Hotel Califórnia

Imagem: lágrimas (ükma)
Contemplo a mulher deitada
depois do banho de vinho
depois do banho de sêmen
depois do banho de cuspe
depois do banho de espuma
depois do banho de mar
depois do banho de chuva

Alcoolicamente, deduzo ter entrado no quarto errado e concluo melancolicamente que está tudo errado.

Eu gostaria muito que a máxima: "tudo só acaba quando termina" funcionasse comigo de vez em quando. Minhas unhas, por exemplo, resolveram nascer quebradas. Ultimamente, tudo tem acabado antes de começar.

No meu quarto tem analgésicos, chuveiro, cerveja e um espelho.Apesar de restritas, foram as únicas opções que me restaram e eu tentarei me virar com elas hoje à noite.

Cátia Perigosa I e II

Imagem: olho e corrente sangüinea (ükma)
I.


Acenou, despedindo-se para sempre do homem adormecido. Ele não deve ter sofrido quando a bala alojou-se no lado esquerdo da sua cabeça, pois sabia muito bem que ela era uma mulher desequilibrada e fascínora, uma assassina em série procurada pela polícia. Ele corria perigo ao seu lado, mas mesmo assim, aceitou correr aquele risco e se entregou a ela como jamais havia feito antes com mulher alguma.


Antes de adormecer, ele a beijou com paixão e falou "Caso não nos vejamos mais, saiba que foste tu a mulher que mais amei na vida".


Ela não titubeou ao atirar, pois já haviam tentado enganá-la antes com argumentos bem mais convicentes. "Esses depravados só querem fama às minhas custas." - disse, sem esconder o seu ódio ao imaginar a notícia no jornal: "Sobrevivente revela como conveceu assassina em série a desistir do crime".


Cátia largou a arma em cima da cama, tirou as luvas, suspirou por um tempo e pensou:


"Mas e se fosse verdade... hein?"



II.


Adorável anjo, vou te assistir dormindo.
Não acorde agora,
pois vou esfaquear e violentar
o seu travesseiro
só porque você esqueceu de colocar a fronha.

Não tente me enganar, fingindo-se de almofada,
conheço muito bem a distância entre o sofá e a cama

Não tenha medo do fio,
Eu sei que você não precisa de brincos de pena,
suas orelhas não correm perigo algum,
muito menos o seu pescoço.

Você precisa é de uma língua quente perfurando sua boca úmida
e de mãos treinadas no manuseio de armas brancas.

A Massagista

Imagem: Elisa (ükma)
Minha mulher é massagista
Ela jura que não dá
Mas tenho mau-pressentimento
Pois cada mês, a vida fica mais cara
Uma vez ou outra
Ela se sacrifica, aposto
Para que a nossa sacola não saia vazia
quando vamos ao supermercado

Quando chego em casa
Depois de um dia na fila do emprego
Ela insiste em fazer massagem
Mas eu não aceito, tenho medo de saber
como se sentem os clientes dela
E como ela se comporta com eles

Ela quer saber que calcinha deve usar
Eu sempre escolho a preta
Pois ela tem os pêlos pubianos fartos e negros
Com as clarinhas, aparece.
Até biquíni claro, desaprovo.

Gosto de vê-la maquiada pra sair, parece outra pessoa.
Sempre fica uma marca vermelha na minha boca.
Limpo depressa
Parece traição.
Sou fiel.
Quando ela chega, fico aliviado.
É perigoso andar na rua de noite.
Se ela conversa comigo depois do banho, é porque a noite foi boa.
Se ela deita e vira para o lado, é porque foi ruim.
Gosto de segunda-feira à noite.
Ela fica em casa e faz o jantar
Reclama que faz uma semana que não transa, já me empurrando pra cama.
Engraçado que eu acredito quando ela fala, acho que ela não dá, mesmo.
Só faz massagem.

Old School

imagem: saudade da carpa (ükma)
Barba branca

Old School

Sífilis

Cirrose

Oceano

Solidão


Ninfetinha

Viciada

Piranha

Oxigenada

Hardcore

Depressão


- Trezentas pratas, Marujo - disse ela, abotoando o sutiã, sem conseguir encarar novamente o par de olhos azuis opacos e remelentos.

- Eu disse que conseguiria o dinheiro, não disse? - falou o velho lobo do mar, ajeitando as notas entre os seios da jovem prostituta.

A garota saiu do barco nauseada com o cheiro de peixe e cachaça impregnados em seu corpo e poucos metros adiante, desmaiou.


A partir daquele dia, sonhou todas as noites com a carpa vermelha penetrando-lhe as estranhas. Acordava sôfrega e bebia muito depois de cada sonho. Certa noite, deixou o companheiro de costas largas e peludas dormindo e correu até o cais, sem saber ao certo o que estava fazendo. Encontrou o barco ancorado no mesmo lugar, mas estava vazio.


Aliviada, decidiu ir embora, quando foi surpreendida pelo Velho Marujo. Seu coração disparou, suas pernas fraquejaram e ela entendeu.


-Eu amo você, Marujo. - declarou-se.

Ele riu, mostrando os dentes amarelos. Era sua primeira vez com amor. Foi a a última vez dele com amor.


Sobre o corpo sem vida, ela chorou. Depois, conformada, reproduziu a carpa vermelha numa folha de papel de pão, beijou-lhe pela última vez e partiu.


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- Quanto custa? - perguntou ela, mostrando o desenho.

- Duzentas pratas.

- Certo.

- Onde vai ser?

- Entre os seios.