domingo, 24 de fevereiro de 2008

Noite Passada a limpo

Imagem: marionete (ükma)
A noite passada acordou fantasiada de Suplício. Dona Noite, como ela gosta de ser chamada, sempre me encontra e me escolhe para ajudá-la em seus números de ilusionismo que se estendem até o amanhecer.

Passa o gato por cima da cama, o vento no ventilador, o barulho da chama da vela queimando no andor da procissão;

passa o perfume das flores, as vozes do além, o frio na janela, o cortejo das trevas cantando e rezando - amém.

Passa os três patetas na tela, a sede por cima da língua, o lençol sobre os pés

O pezinho que eu puxei
de criança atormentada
eu lambi e machuquei
quando dei uma dentada
tão branquinho e pequenino
parecia um bijouzinho

Dona Noite dá gargalhadas da minha superstição infantil e também arremeda meus gritos de dor sempre que o Pesadelo traz a família para fazer piquenique no meu estômago.

Ele também passa no sonho, mas é só pra me torturar, pois sei que Ele é a Noite fantasiada de suplício que me enconta e me escolhe para ajudá-la em seus números de ilusionismo que se estendem até o amanhecer.

Um comentário:

Anônimo disse...

Fantástico. Belo filme trágico-realista-pseudobiográfico!