A heroína desta história chama-se Dulecê, uma índia sem tribo, muito loura, de peito zarolho com bicos iguais a pontas de flecha.
Nasceu sem cabaço porque o dito-cujo foi prometido ainda no útero por sua mãe aos espíritos da cachoeira em troca de chuva. Nunca fez falta, não.
"Lá vem Dulecê, a índia cabeça-de-palha!" - cantava a natureza.
E ela chacolhava os quadris no ritmo do seu nome.
Na madrugada verde-bandeira, a amazona nata cavalgava com seus mil pêlos d'ouro surribando na crina castanha do Andaluz bravio, acompanhada sem perceber por uma constelação de olhos entocaiados, que a desejavam mais do que coração ao sangue.
Era chegada a hora de ser mulher e Dulecê se foi sem despedida, sem nada.
Era agora uma índia rameira, sem eira-nem beira. Foi seduzida por olhos bêbados que a cobriram de vestidos de chita, sandálias rasteiras e bijoux. Do seu espírito selvagem, apenas conservou a boca sem cor, a cantiga faceira e o crédito na felicidade.
Os olhos de Dulecê quase não viram lágrimas enquanto estiveram vivos.
À luz do luar
uma cabeça-de-palha
sem pena,
rola no chão
Degolaram a índia loura e ainda
lamberam o facão
E assim termina a trajetória da índia muito loira. Espero que a amem tanto quanto o seu assassino a amou.

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