sábado, 25 de abril de 2009

História de Pinacoteca

Saiba que naquela noite seus olhos de fotografia me congelaram durante a valsa dentro do bombom. A ausência de movimento entre nós e o perturbador silêncio dos corpos ainda fazem sentido, não é? O sabor conhecido de todos os doces que nunca derreteram sobre as imagens estáticas ajudam a contar a nossa história de pinacoteca.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Gilquinha em: A segunda menopausa.

Gilquinha andava sumida. A pressão nas alturas, seguidos malestares súbitos nos elevadores e uma tristeza muito grande por conta da morte da sua melhor amiga Alvina de oitenta e um anos, vítima de overdose dentro de um cruzeiro universitário. Alvina tinha um corpão, mas não tinha cérbo. Pena.

Quanta encheção essa coisa ruim que queria explodir dentro dela. "Menopausa de novo, doutor?" a primeira nem incomodou.

Justo José não parava de ligar querendo sair com ela.
-- Mas Jota-Jota, eu tô com menopausa!
-- Não fala assim, que eu fico louco! aposto como você tá com o dobro de fogo!
-- Mas não pra essas coisas da tua cabeça, homem! não paga a pena tu vir de avião dessa distância, espera até eu melhorar. Tchau! - que irritação, cruzes... parece coisa de velha ranzinza, nem parecia Gilquinha.

A tragédia se deu no dia que o aparelho de ar-condicionado pifou. Quanto mais chorava, mais calor sentia e sua pressão quase passou dos catorze por nove.

-- Alô, Jussara? liga para o eletricista, mas não me manda criança, não! Eles só fazem cagada.

Antônio demorou, mas veio. Não parecia muito experiente, mas de certo, era o empregado mais velho que a Jussara conseguiu arrumar. Aparentava uns cinquenta, no máximo.

-- Sr. Antônio, arruma depressa, que tô passando ruim de tanto calorão.
-- É rapidinho, Dona Gilquinha. - ué, sabia até o nome.

Coisa louca, de repente começou a tremer todinha. Ia morrer!

-- Dona Gilquinha?? A senhora está bem?
-- Frio! Frio! Ai, Antônio, vou morrer!
-- Vou pegar um cobertor pra senhora!
-- Ajuda a me levar pro quarto, Antônio.

Ele obedeceu e só saiu de lá no outro dia. Gilquinha melhorou depois da visita de Antônio e ainda garantiu um eletricista de confiança pro resto da vida. Com pesar, lembrou da Alvina, que tinha corpão, mas não tinha cérbo. Coitada.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Cueca Nova

Sentiu medo da novidade, de repente cueca nova!

-- Não gostou?

Ela precisava pensar com calma na resposta certa, afinal, era insegura e muito nervosa.

- É nova.

Sim, ela percebeu que a cueca era mais branca que o lençol, mas o que havia de errado com as outras cuecas? Com que propósito depois de tantos anos de convivência ele faz uma coisa dessas? Ela o conhecia como a palma da sua mão e... espere, ela reconheceria a palma da sua mão no meio de centenas de fotos de outras palmas? Acho que não.

-- Não gostou? é nova.

Que martírio, por que precisava passar por aquilo? Não estava mais suportando o silêncio, queria gritar o que estava sentindo, precisava saber o que aquela cueca nova representava para ele. Estava prestes a ter um colapso.

-- Por que comprou cueca nova?
-- Ganhei da mamãe.
-- Por um acaso ela acha que você não tem cueca em casa?
-- Não é isso, ela quis me dar um presentinho, apenas. Não gostou?

-- É nova. Sua mãe sempre com segundas intenções, pois saiba que suas antigas cuecas são mais limpas do que os talheres com que sua mãe enfeita a mesa do jantar!

-- Querida, eu sei... não leve tudo tão a sério, é apenas uma cueca nova.
-- É apenas a sua mãe, como sempre!
-- Pronto, se o problema é a mamãe, então eu tiro a cueca. Não precisa chorar!
-- Agora você deve estar pensando que sua mãe tem razão quando me acusa de ser uma louca. Quanto drama por causa de uma cueca que tem seu número de solteiro, não é mesmo?
-- Eu não estou pensando em nada. Estou sem cueca.
-- Eu gostaria que você vestisse uma cueca conhecida e que me acalmasse dizendo que não está pensando em divórcio ou coisa parecida.
-- Eu não estou pensando em nada! e pronto, já vesti a cueca velha!
-- Não fale assim da cueca que vive com você há anos, que o protege, que o compreende! Você sempre volta estranho lá da casa da sua mãe!
-- Se é para sua felicidade, não irei mais à casa de mamãe, amor. Vamos dormir, agora?

Ele se acha muito esperto, mas ela viu muito bem quando ele escondeu a cueca nova embaixo do travesseiro.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A linha imaginária

Os restos dos teus cabelos estão embaixo da minha cama. Agora você usa uma franja estratégica? Admiro sua coragem... eu sigo repartida ao meio.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Jardim de Inverno

Meu corpo escorregou por teus vidros oleados. Nossos dedos furaram preconceitos que estão no papel, quebraram promessas prateadas e desenharam um novo destino no ar.

Os loucos sabores de nós dois passeiam agora pelo céu-da-boca da multidão - nosso gôsto na boca de estranhos e risos atrasados depois - sempre queremos mais daquilo que o ciúme enxerga e do que o amor pode superar. Uma oração endereçada a todos os santos e estamos aqui outra vez, um de frente para o outro sem saber o que dizer, mas com veneno na cabeça.

Eu tive uma idéia. No segundo andar, há um jardim de inverno atrás dos pilares. Há um balanço de dois lugares e muitos jasmins amarelos.

Na ordem: óleo, meu corpo jasmim, o frio a nos embalar e cabeças envenadas.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Os três biquinhos de Carência

Carência. Assim se chamava a filha da nossa empregada. No início achei graça desse nome, mas depois fui achando bonitinho demais. E fui achando a menina Carência bonita demais, também. Tanto, que até sonhei com ela.

Estava completamente apaixonado por ela, mas me consumia de vergonha de contar para alguém que estava gostando da filha da empregada, uma pessoa tão pobre. Um dia eu contei pro João Victor, meu melhor amigo e ele quis conhecer a Carência, então convidei-o para ir na minha casa à tarde jogar vídeo-game. Ele achou a Carência muito bonitinha e ela sorriu pra ele de um jeito estranho quando passou um filme na televisão que eu nunca tinha visto, mas que eles já tinham assistido e ficavam conversando um com o outro sobre o filme. Nunca senti tanto ciúme na minha vida, fiquei emburrado, desliguei a televisão e mandei Carência voltar pro quarto dela, que não ficava bem pra uma empregadinha ficar de trelelê com os patrões. Ela obedeceu. De cabeça baixa. Se arrependimento matasse, eu morria ali mesmo! Coitadinha da Carência!! Ganhei uma bronca do João Victor, que me chamou de nazista, fascista e de um monte de coisa que a gente nem tinha aprendido na escola ainda.

O João Victor também se apaixonou pela minha Carência e eu acabei brigando de soco com ele no pátio da escola e rompemos nossa amizade para sempre. Aí naquele dia, com o olho todo roxo e com o coração acanhado, eu abri meu coração para a menina. Ela ficou assustada e chorou. Chegou a ficar vários dias sem falar comigo. Perguntei o que havia acontecido e ela falou que a mãe dela ficou muito zangada com a minha declaração de amor, disse que eu era um moleque rico e petulante e que as duas iam ser mandadas embora se minha mãe descobrisse tudo isso. Aí fui eu que chorei muito, mas eu não podia contar nada para a minha mãe. Eu percebi que depois daquele dia, Carência também começou a gostar de mim e então eu perguntei para a minha mãe se nós podíamos ser amigos e se Carência podia brincar no computador comigo. Minha mãe deixou, mas me alertou sobre os perigos da pré-adolescência. Fingi que nunca havia escutado aquilo antes e prometi ser o filho mais comportado do mundo. Carência adorou o computador e cada dia mais se interessava por programas mensageiros e perfis em sites de relacionamento.

Era pela internet que o nosso amor se realizava todos os dias. Carência era meu primeiro amor, um amor tão forte que me desconcertava. Um dia eu pedi pra ela me beijar e ela não quis, porque tinha medo da mãe dela ser demitida, então eu insisti e falei que ninguém ia ficar sabendo. Ela não quis e eu me conformei.

No outro dia, ela pediu pra eu tirar uma foto para ela colocar no perfil, então peguei o meu celular e tirei uma foto dela, uma bem linda. Ela fez um biquinho como se estivesse me dando um beijo e sob sua blusinha branca, pude ver os outros dois biquinhos pontiagudos que pareciam querer furar a camiseta. Eu não conseguia parar de olhar aquela foto, só pensava em Carência e nos seus três biquinhos e em como eu desejava tocá-los! Céus... eu estava realmente muito apaixonado.

No dia seguinte, cheguei da escola disposto a revelar a todos na casa sobre minha paixão e deixar claro que se Carência fosse mandada embora, eu iria junto com ela. Estava decidido! Ao chegar em casa, porém, encontrei outra empregada e o relógio que marcava as horas da minha felicidade parou para sempre. Eu só pensava nos três biquinhos de Carência. A página dela na Internet nunca mais foi atualizada e a minha vida perdeu completamente o sentido desde então. Minha mãe chora muito ao me ver assim, tão jovem e debilitado pela depressão. Ela jura que foi Solange quem pediu para ir embora e que não deixou nenhuma forma de contato. Meu pai, que mora nos Estados Unidos veio me ver e disse que iria pagar um detetive particular para encontrá-las. Enquanto isso, eu vou definhando... e pensando nos três biquinhos de Carência.

sábado, 19 de julho de 2008

decadence avec elegance

Circunstancial. O casaco de vison avelhado cheirando a cigarro era tudo que possuía. E a vitrolinha da vovó, que não valia nada.

O mascate lembrou daquela moça por causa dos anéis, vendidos por uma ninharia dias atrás. Ele viu as jóias abandonando os belos dedos, como uma tripulação desesperada em meio ao naufrágio. Deixou o brechó com a vitrolinha debaixo do braço. Era só o que lhe restava.

O dinheiro recebido pelo vison foi gasto com um táxi, com um vestido de noite e com um par de sapatos novos. O sanduíche de mortadela entusiasmou o seu estômago... e a vitrolinha ficou no boteco.

E se foi, pisando firme, como quem ainda poderia ser feliz, destoando no luxo trivial de um lanche no balcão do bar. Estava pronta.

Circunstancial. Suas raízes eram perenes.


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Uma parceria com Hesidro Lanoia