Passa o gato por cima da cama, o vento no ventilador, o barulho da chama da vela queimando no andor da procissão;
passa o perfume das flores, as vozes do além, o frio na janela, o cortejo das trevas cantando e rezando - amém.
Passa os três patetas na tela, a sede por cima da língua, o lençol sobre os pés
O pezinho que eu puxei
de criança atormentada
eu lambi e machuquei
quando dei uma dentada
tão branquinho e pequenino
parecia um bijouzinho
Dona Noite dá gargalhadas da minha superstição infantil e também arremeda meus gritos de dor sempre que o Pesadelo traz a família para fazer piquenique no meu estômago.
Ele também passa no sonho, mas é só pra me torturar, pois sei que Ele é a Noite fantasiada de suplício que me enconta e me escolhe para ajudá-la em seus números de ilusionismo que se estendem até o amanhecer.

Um comentário:
Fantástico. Belo filme trágico-realista-pseudobiográfico!
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