Carência. Assim se chamava a filha da nossa empregada. No início achei graça desse nome, mas depois fui achando bonitinho demais. E fui achando a menina Carência bonita demais, também. Tanto, que até sonhei com ela.
Estava completamente apaixonado por ela, mas me consumia de vergonha de contar para alguém que estava gostando da filha da empregada, uma pessoa tão pobre. Um dia eu contei pro João Victor, meu melhor amigo e ele quis conhecer a Carência, então convidei-o para ir na minha casa à tarde jogar vídeo-game. Ele achou a Carência muito bonitinha e ela sorriu pra ele de um jeito estranho quando passou um filme na televisão que eu nunca tinha visto, mas que eles já tinham assistido e ficavam conversando um com o outro sobre o filme. Nunca senti tanto ciúme na minha vida, fiquei emburrado, desliguei a televisão e mandei Carência voltar pro quarto dela, que não ficava bem pra uma empregadinha ficar de trelelê com os patrões. Ela obedeceu. De cabeça baixa. Se arrependimento matasse, eu morria ali mesmo! Coitadinha da Carência!! Ganhei uma bronca do João Victor, que me chamou de nazista, fascista e de um monte de coisa que a gente nem tinha aprendido na escola ainda.
O João Victor também se apaixonou pela minha Carência e eu acabei brigando de soco com ele no pátio da escola e rompemos nossa amizade para sempre. Aí naquele dia, com o olho todo roxo e com o coração acanhado, eu abri meu coração para a menina. Ela ficou assustada e chorou. Chegou a ficar vários dias sem falar comigo. Perguntei o que havia acontecido e ela falou que a mãe dela ficou muito zangada com a minha declaração de amor, disse que eu era um moleque rico e petulante e que as duas iam ser mandadas embora se minha mãe descobrisse tudo isso. Aí fui eu que chorei muito, mas eu não podia contar nada para a minha mãe. Eu percebi que depois daquele dia, Carência também começou a gostar de mim e então eu perguntei para a minha mãe se nós podíamos ser amigos e se Carência podia brincar no computador comigo. Minha mãe deixou, mas me alertou sobre os perigos da pré-adolescência. Fingi que nunca havia escutado aquilo antes e prometi ser o filho mais comportado do mundo. Carência adorou o computador e cada dia mais se interessava por programas mensageiros e perfis em sites de relacionamento.
Era pela internet que o nosso amor se realizava todos os dias. Carência era meu primeiro amor, um amor tão forte que me desconcertava. Um dia eu pedi pra ela me beijar e ela não quis, porque tinha medo da mãe dela ser demitida, então eu insisti e falei que ninguém ia ficar sabendo. Ela não quis e eu me conformei.
No outro dia, ela pediu pra eu tirar uma foto para ela colocar no perfil, então peguei o meu celular e tirei uma foto dela, uma bem linda. Ela fez um biquinho como se estivesse me dando um beijo e sob sua blusinha branca, pude ver os outros dois biquinhos pontiagudos que pareciam querer furar a camiseta. Eu não conseguia parar de olhar aquela foto, só pensava em Carência e nos seus três biquinhos e em como eu desejava tocá-los! Céus... eu estava realmente muito apaixonado.
No dia seguinte, cheguei da escola disposto a revelar a todos na casa sobre minha paixão e deixar claro que se Carência fosse mandada embora, eu iria junto com ela. Estava decidido! Ao chegar em casa, porém, encontrei outra empregada e o relógio que marcava as horas da minha felicidade parou para sempre. Eu só pensava nos três biquinhos de Carência. A página dela na Internet nunca mais foi atualizada e a minha vida perdeu completamente o sentido desde então. Minha mãe chora muito ao me ver assim, tão jovem e debilitado pela depressão. Ela jura que foi Solange quem pediu para ir embora e que não deixou nenhuma forma de contato. Meu pai, que mora nos Estados Unidos veio me ver e disse que iria pagar um detetive particular para encontrá-las. Enquanto isso, eu vou definhando... e pensando nos três biquinhos de Carência.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Um comentário:
Ahahaha
Postar um comentário