sexta-feira, 30 de maio de 2008

Meu dinheiro sur(real)

I. O colibri desvalorizado
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II. A garça abatida na nota de 5
As botas brancas de plástico, arrastam pelo pescoço longo, uma ave fleumática em direção à câmara gelada. Cisnes perplexos assistem a tudo do alto dos arranha-céus envidraçados.

“Adeus, Biguá... partirei para nunca mais”

Sim, caros cisnes... a vida das garças não é nenhum conto-de-fadas.

As botas plásticas retornam solitárias, tingidas de vermelho, forradas com penas brancas. Cumprida a missão, são rapidamente substituídas por chuteiras, pois a seleção canarinho continua sendo esperança de alegria para milhões de brasileiros, obrigados a abater uma garça por dia no restaurante a quilo.

Dez garças analgésico-dançarinas fabricam sorrisos nas mãos calejadas e aliviam pequenas dores de cabeça.



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III. A história da Arará

Ações corriqueiras:

O cliente se dirige ao terminal bancário, costura as informações solicitadas e imediatamente, o terminal lhe entrega uma pequena lata. O cliente abre o lacre, retirando do interior da lata um saquinho de juta com a quantidade de moedas de ouro desejadas.

“Este terminal agradece sua preferência” – dizia a máquina. Sempre foi assim até que...

O Caos estabelecido:

Sobrecarga no sistema! As linhas do tele-atendimento estão interditadas porque nesta madrugada, uma Arará fez seu ninho dentro de um terminal eletrônico, provocando pânico dentro do shopping center.

O terminal automático, (sempre tão simpático), estava engasgado e não cuspia mais as moedas de ouro. De sua boca fina e retangular, escapava uma revoada de aves alegres, que buscavam abrigo nos bolsos dos clientes estupefatos.

Em nota exclusiva, o presidente da Casa Económica afirmou possuir uma licença do Instituto Nacional do Meio Ambiente (INAMA) para trocar ouro por Arará dentro do território nacional e advertiu: criar este animal em cativeiro constitui crime ambiental passível de prisão. “Façam suas notas circularem livremente pelo comércio e não esqueçam: uma ararinha sozinha não faz verão” – disse em tom otimista, cometendo uma gafe contra as andorinhas.

E foi assim que tudo aconteceu. É por isso que, sempre que alguém solicita 50 (sur)reais ao terminal bancário, recebe 5 Ararás, fáceis e rápidas de gastar.

Cuidado com a falsificação: Ararás verdadeiras não falam palavrão.

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IV. Micos que pagam pequenos sonhos dourados

O mico-dourado, "existido" da costela de leão, é Deus das suas próprias idéias raras e luminosas, tão raras que estão ameaçadas de extinção.

De tanto pagarem o mico, a divindade enriqueceu e anualmente, se esbalda em bailes de máscaras venezianos. O luxo do carnaval italiano é para poucos: raros prismáticos, brilhantes primatas que pagam pequenos sonhos dourados da parcela mais humilde da população em troca de votos.

A brincadeirinha inocente com a costela do rei, havia ido longe demais. A extinção é a maneira que o Criador encontrou de destruir seus pequenos caprichos, mas apenas aqueles que ousam brilhar mais do Ele.

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